sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Acorda, Criança


Acorda, criança!
O mundo de cristal em que te escondes
Está prestes a ser quebrado.
As frágeis muralhas sonhadas pelos teus dedos
E construídas pelos teus olhos
Em breve cairão por terra
E os segredos que em teu peito encerras
Serão abandonados.
O conforto do teu leito será trocado
Por um novo mundo
Um novo e admirável mundo
Onde os cordeirinhos que contas para adormecer
Dançarão com os lobos dos teus pesadelos…
São lascivos e perigosos os desafios
E é com um sorriso que contas recebê-los?
Acorda, criança!
O mundo está à tua porta
Esperando pela tua indecisão.
Dorme, criança…
Deixa-te embalar pelos sonhos que a nova idade
Te uivará aos ouvidos…

domingo, 31 de Janeiro de 2010

Natureza Morta


Às vezes, acordo-me a mim próprio
Para me impedir de sonhar
Pois o sonho de que me acordo
É o sonho de não acordar…

quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

Europa


Um punhado de areia neva-te os olhos
Seca-te os olhos, cega-te o sangue. Ceifa
Num só golpe e mortal a ceara que alimenta
Os ócios negros da melancolia. Alheia-te
Do sabor a abandono que te percorre a pele
E te povoa os sonhos. E sonho-os de olhos abertos.
Estilhaçadas, as cúpulas caem sobre ti como
Gotas da chuva que não chega, não importa
O quanto tu dances… líquidas, perfurantes,
Laminadas, as palavras dançam na tua prosódia
Com o sábio desconhecimento dos velhos sábios
De uma Antiguidade grega ou quem sabe romana.
Há vampiros de carne escondidos sob o manto marmóreo
Da lúxuria persa. Europa. Viagens. Fumo. O movimento fálico
Dos inter-rails. O orgasmo numa estação de comboios polaca mesmo
Na fronteira de um piscar de olhos às estepes russas. O som
Da areia que nos chove em imagens fotográficas. Trovejantes.
Lucíferas.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

anjo com boca de palhaço


ao sabor de algodão doce e ao som de trompetas feéricas
contemplei um bando de brancos cisnes caindo do céu em uníssono
numa chuva de penas sorrindo sobre a cabeça das crianças da noite
adormecido o vento repousava dormente na garganta
dos lobos que aguardavam em silêncio sobre a líquida superfície
da terra pela chegada dos cadáveres das aves solidi
ficando à espera como sangue seco na pelagem negra
e nos dentes brancos brancos como os cisnes
os lobos aguardam os olhos amarelados para o céu revirados
as mandíbulas abertas e pingando baba os ácidos estomacais a trabalhar
aguardam os lobos pelo voo dos cisnes
as almas dos lobos empaladas nos corpos dos ciprestes
e o som metálico do movimento de um carrossel pelas sombras iluminado
começou a ganir a chorar a ranger a uivar
enquanto ali me prostrei eu os joelhos já em sangue na lama
onde archotes eléctricos desbravam a escuridão com mil cores
e descobrem a cabeça de um anjo maquilhado com boca de palhaço
andando à volta em revolta e em reviravolta num carrossel de horrores

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Made of...


Sou feito de
Carne,
Pele,
Ossos,
Poros,
Sangue.

Sou feito de
Ideias que devoro
E regurgito
Até estar morto,
Exangue.

A minha língua é
O porto onde me
Ancoro.
E de onde mergulho
Para me achar
No perder-me.

Tudo o que produzo
O meu corpo expulsa,
Nada me fica.

Palavra nova,
Velho verbo,
Sentimento,
Filosofia,
Poesia,
Excremento,
Suspiro,
Orgasmo,
Lamento,
Nada me fica.

Até o meu coração o escrevi aos filisteus.
E nem os meus versos são realmente meus.

Da Teoria Poética

Não tenho, ao contrário de outros muitos, uma teoria literária ou sequer uma poética. Para mim, escrever é um acto semelhante aos actos de comer, beber, cagar: uma necessidade fisiológica. Talvez a minha merda cheire um pouco pior do que a desses muitos outros. Talvez. Mas não deixa de ser merda. A minha e a deles.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

The Eyes of the Beholder


I welcome you all. In her mid twenties she died,
On the eve of her wedding. No one really knew
What had killed her. Even as the groom mourned his bride
He felt uncertain whether she was dead or alive
And only believed the grim news when she was taken into
Her underground bed. And sad he sat by her side.
But she still looked lifeful and he wished to hold her
For all beauty lies in the eyes of the beholder.

When all folks went away – family and priest as well –
He ripped off his clothes and, caring not about the rain,
He dug out the dirt from the grave only to tell
Her how much he loved her and to wish her farewell.
When he embraced her dead body, no blood in her veins,
He then realized he was in his own private hell.
She's pale and cold as death – oh much colder! –
For all beauty lies to the eyes of the beholder.

But oh love thou art stubborn, there he stood as she laid
In her eternal cradle – one so cold and damp
(Oh merciless god nothing he can do or say
To trade his life for hers, to have her for another day)
And he too grew damp and cold – and old oh so old…
Then, many years after he got up and carried on his way.
If he was here, he'd tell you he no longer loved her
For all beauty dies through the eyes of the beholder.

S/título


Dizem que Abel caiu ao pés de Caim,
Qual mártir e fratricida unidos pelo sangue derramado.
E que Caim foi filho da Malvada Serpente que nos tentou a todos.
Tentou e conseguiu…
Mas ele vive na ponta dos esquálidos dedos do Mago
Que sara a pútrida gangrena dos olhos que o observam
– E que o vêem! Sara o Mago
Abrindo feridas com cuspo fechadas, fachadas
Com lágrimas e pus pintadas;
Rasgando as folhas da Árvore Primordial à incestuosa sombra
Da qual Adão e Eva se habituaram a deitar
(Ah, sim, a Humanidade é um animal de hábitos,
Hábitos sob os quais se escondem terríveis segredos,
Como falsos falos pingando salmos e recitando sémen);
Dançando sobre as falhas tectónicas do Paraíso Celestial.
Aos pés de quem cairemos nós? Eu escolho não perecer
Esmagado por titãs de pés de barro. Vem, Mago, lambe
E sara as nossas feridas…

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

S/título


Ali jaz um sorriso, construído no perfil
Da sombra dos ciprestes, retalhado sob os escombros
Da Torre que te tomei no tabuleiro alvi-ébano
Que as estrelas alumiaram no interior do teu ventre.
Ali jazo eu, como um joker
Fora do baralho, de sorriso esculpido a pedra e a rugas
E imerso num mar de baton rouge... e a lua outonal,
Branca como cristal, reluz
Na pele da tua barriga e das tuas ancas, que sinuosamente
Me chamam a trilhar o caminho das tuas coxas brancas...
No início da jornada, todas as jogadas poderiam
Ser ponderadas e todos os gestos ensaiados. Mas no final,
O que nos resta para lá do momento?
Jogadores somos e sonhadores nós
Os das palavras vãs e dos utópicos amanhãs...
Mas não é a utopia uma mera actriz num teatro onírico?
Uma tétrica meretriz aprendiz de um orgasmo empírico?

A Eterna Inseparabilidade dos Amantes


Sentada no trono da madrugada
Enrola-se no corpo do seu escravo e amante
Que a aquece
E lhe cheira os cabelos que lembram o nocturno mar…
Sabe-se dona do mundo e das suas eras,
Sabe que nada nem ninguém os poderá separar,
Nunca nesta vida ou na próxima,
Homens ou feras…

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Paisagem: mulher negra (de lábios pintados) fazendo cachupa


Observada à lupa,
Jô, preta do sol,
Lábios cor de amora,
Quando faz cachupa,
Fingirá que engole
Ou cospe p'ra fora?

S/título


Canta, como pegadas invisíveis insonoras,
O canto revelado pela borda do cântaro,
Impressões digitais na fina pele da chuva.
Conta, como quem canta aos lobos para adormecê-los,
Os escalpes dos carneirinhos,
Sanguinolentos-lentos-lentos na sua ainda mais lentíssima hecatombe…
Disseram-me uma vez que a madrugada seria branca e que
Cheiraria, promessas vagas e imprecisas com sabor a rúcula,
Ao azedum do leite derramado nas costas do poema e que,
Escorrendo, se veio a depositar, coalhado,
No espaço sideral entre os teus dentes…
Quando olho a vagina emoldurada pelas tuas alvas coxas
(Brancas como a madrugada que me foi prometida)
E suculentas-lentas-lentas no seu lentíssimo entreabrir de pernas,
Sei cheirar o suor que derramámos amanhã sobre as sílabas
Arrancadas à carne como roupas gentilmente violadas.
Não sei onde caíram os botões que saltaram da tua camisa, dizes-me,
(talvez estejam por entre os lençóis da cama)
Mas acabas por sorrir em silêncio quando o cantarolar
Da chuva batendo no meu peito abafa o cântico da tua poesia…

2:3:666


Exauridas as fórmulas antigas
Do pensar grego e da moral cristã
A hora é de clamar a Manhã,
A Luz que junta hostes inimigas.

Nova moral deverá ser forjada
(Um pensar novo será erigido!)
E um luminoso facho ser trazido
Pelo Anjo da Manhã anunciada…

De ter um Pai porém chorar sozinho
Está o mundo farto mas agora
Vem quem lhe descobrirá o sorriso.

Ó mundo, quem te alumia o caminho?
Quem te urge a decidir que é esta a hora
De semear o infértil Paraíso?

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

S/título


no fundo do faro há-de nascer um cão
cujo pêlo tem o cheiro da terra molhada
num dia de chuva de verão
as folhas hão-de cair como pulgas deicidas
mártires vampíricos esperando a hora da fatídica (in)decisão

nisto

os cães ladram e a caravana
.........................................tres-
..................................................-passa o coração
dos que nunca viajaram para lá da rota
traçada pelos seus pés

e entre tantos
cães
a caravana passa mas não despercebida
só a não viu quem não quiser gritar que
o entretanto é a hora anunciada

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

S/título


Reflexo o abismo na monotonia latente
Dos olhos que se escondem por detrás dos teus fantasmas.
Não suspiram nem se entregam num derradeiro estertor
As meninas dos teus sonhos, como
Pupilas deserdadas e bastardas procurando o trilho claro
Da Ciência na obscuridade dos teus sonhos.
Os teus sonhos ai os meus sonhos...

Fechas os ouvidos à Verdade que te mente na palma da mão
Enrugada enquanto abres as pernas à Mentira que te
Seduz dançando nas sombras da luz da madrugada...

Seios as colinas que toco as meninas dos teus sonhos,
Sei-os, sei-os de cor.............(aos teus sonhos...)

Lobos brincando, como ovelhas negras, albinos,
Na fronteira do matricídio e do incesto...
(eis a matilha marchando pintalgada de vermelho
(eis que o hímen se rompeu
(eis que o uivo surge pintalgado de vermelho)

Vem-me.
Come-te e cospe-nos para fora do seu leito.

domingo, 13 de Setembro de 2009

Cortar as Vazas


Vazei-me
A mim de sangue.
Vazei-me
A ti de amor.
Vazei-me a nós e ao sonho que foi nosso
De uma casa branca com um jardim
Outrora verde, hoje sem cor.
Vazei-me como quem vazasse
O velho frigorífico que a velha senhoria fez o favor
De incluir na renda
E que estava cheio de garrafas de cerveja vazias
Que eu voltei a encher com o meu sangue.
No congelador, havia ainda uma garrafa de vodca
Por estrear.
Tirei-a e atirei-a
Para debaixo da cama e enchi-o (o congelador)
Com a tua cabeça cortada – pura expressão do teu horror…

segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

S/título


Parei no equilíbrio
Malabarista
Bruto dos braços
Nas barras paralelas
Das tuas anáforas,
Amiga.
Parei para te escutar
E beber o lago das tuas cântaras
E mergulhar nas tuas coplas
E mergulhar no dístico olhar
Da tua cantiga.

terça-feira, 1 de Setembro de 2009

S/título


O sabor amarelo e verde
Dos limões
Misturado com o cheiro azedo
Das mãos
Que espremeram os limões
Tempera a língua dos que provaram
Gota-a-gota
Ao que sabia a raiz ácida do limoeiro.

sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

S/título


É na noite que oriento, crepuscular,
A direcção do facho que ilumina
A labiríntica escuridão
Da mente que me mente
E que se esfinge luciferina
Em versos de trovejantes marés
Dos grotescos
Egos que apertam o silencioso
Eco da minha garganta…

segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

Pelagus (XXXII - último poema)


Há uma árvore que é uma floresta
No planeta a que dei o meu nome,
Uma árvore com raízes de espuma
E de sal
Com folhas que são cascos naufragados
E outras que são cascas de búzios ocas
Onde se pode ouvir o som do vento
Por entre a folhagem do mar.
E se a subires até à copa
Podes ver, ao longe,
Perto do horizonte,
Na leiva,
O corpo nu dos búzios
A sonhar.

quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

S/título


Ao fim do caminho
A estrada um dia pára
E na encruzilhada
Sozinho
Escolhe um homem a sua cara.

sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Pelagus (XXXI)


Fôssemos filhos de um deus
Omni-
...._._-presente
...._._-sciente
...._._-potente
E seríamos sempre abraçados com a terra
Acachapados à sua vontade paterna.

terça-feira, 28 de Julho de 2009

agora


pelo lento andar do gato vadio na relva fresca
caçando pombos ou pardais certamente
e pela forma como o sol ainda se esconde
por trás dos prédios à minha esquerda
posso deduzir que ainda é relativamente cedo
o gato acordou com fome depois de algumas
horas de sono poucas que a noite foi preenchida
com outras caçadas e agora busca alimento agora
que os pássaros ainda estão encadeados pela luz
matutina
tudo agora deveria ser então claro para mim
é manhã cedo e este é o meu primeiro poema do dia
mas nada é claro nem quando iluminado pela luz
matutina
a folha que deveria ser branca está escurecida
por palavras já escritas e gastas no seu reverso
para além disso o café deixou-me um travo amargo
na boca e o café da manhã das minhas manhãs é sempre doce
devo então deduzir que já não é tão cedo agora quanto
eu gostaria e que na verdade esta é
a minha hora de morrer
agora
amanhã será outro dia veremos se o gato que certamente
voltará para caçar mais pardais ou pombos
me verá aqui outra vez sentado sentindo o vento
soprando por entre as páginas das árvores e as folhas de papel

domingo, 26 de Julho de 2009

demónios


hoje pintei a minha cara de branco e os lábios de
vermelho carmesim sombreei os olhos com rímel preto
e penteei o cabelo para trás usando os dedos
encharcados de tinta do sangue que corre nas
esferográficas deitadas nuas sobre a minha
secretária se eu a tivesse
............................................não é mentira
para pintar e para escrever nada mais uso
que os dedos e a língua e a imaginação
mas é verdade que hoje pintei a cara de branco
e os lábios de vermelho carmesim e que
sombreei os olhos com rímel preto e que
penteei o cabelo para trás depois ou antes
que importa olhei o espelho e vi reflectidos
sobre mim projectados no branco rugoso
da minha cara pantalha os demónios que desde sempre
me perseguem espantalhos de carne e osso mas
sem coração de asas estendidas num lago de baba
e saliva e fluídos seminais e vaginais
depois ou antes que importa limpei a alma
com um cálice de vinho tinto que sobrara
da noite anterior o tempo um dia para ser mais preciso
fizera crescer no líquido um doce aroma a morte e a solidão
limpei a alma
novamente e novamente e novamente e novamente e novamente
e sempre de um modo novo pela primeira vez
até que as rugas sangrassem e até que os meus
demónios adormecessem depois deitei-me a seu lado
e promiscuamente deitei a cabeça sobre o ombro de todos eles

terça-feira, 14 de Julho de 2009

As Ninfas



Por seis vezes mergulham seis damas
Num lago, às seis matinais horas.
Os lábios e os mamilos, como amoras,
Ruborescem-lhes as caras e as mamas


Brancas, banhadas em leite divino.
Sussurram-me as folhas do arvoredo
Que elas são filhas da Dor, mães do Medo,
Concubinas de um Príncipe malino...

Riem-se as virgens e os que nelas se fiam
Em palavras lânguidas e laivosas
- Tanto quanto as bocas que as pronunciam.

Vive o mito pois o mito é eterno;
Morro eu nos braços de maravilhosas
Ninfas maníacas, pêgas do inferno!



*Fotografia de
Úrsula Mestre (da série "Ninfas")

Ode à Música


Música, Maestro:

Cala o silêncio escuro da solitária madrugada que,
Lânguida,
Se aproxima do profundo âmago da Noite
Com a sua lasciva língua bifurcada.
As sombras são sons que se projectam no teatro do tecto
E nas paredes brancas (negro o tecto e estelífero – negro e brilhante
Como um disco de vinil), demónios dançando nas horas vagas, memórias
Como serpentes enroscando-se nas coxas surdas de Beethoven…

Música, Maestro…
Deixa-me cheirar a terra em que te deitaste e em que plantaste
As vinhas da tua sétima sinfonia; espremer-te os cachos rubis como espremesse
Sons para dentro da tua boca e pintar-te os dentes de vermelho – oh sim,
Os teus famélicos caninos também…

Renunciemos a todas as máscaras que as vozes da vergonha
Nos escondem sobre o rosto – um sorriso suspirado no silêncio da noite
E cônsono com o teu orgasmo (allegro ma non molto) não seria mais precioso
Que mil brindes à paz entre os homens?

Música, Maestro!
Traz-me guerra e clarões de bombas a rebentar, se esse é o teu desejo!
Traz-me o estertor dos moribundos e das civilizações do passado
– E das do futuro!
Traz-me a voz silente dos poetas e os gemidos bastardos das virgens que se sentam
Sobre o falo erecto do seu Deus!
Traz-me o sossegado som dos riachos pueris e a fúria incestuosa de Neptuno
Abocanhando as lácteas tetas de Tétis Prostiputa, bebendo-a de um trago só!
Traz-me o choro do mundo a acabar, o ribombar dos canhões e dos filhos
Da guerra que perecem como mastros quebrados no pélago da nossa apatia!
Traz-me o som do petróleo correndo-nos livre pelas veias…

Ou simplesmente ensina-me a dizer “Amo-te” sem palavras…

E as estrelas liquescentes dissolvem-se lentamente
A caminho do chão viajando pelas paredes e pelo
Espaço esvaziado de vazio, o espaço prenhe de música…
Pouco a pouco, todas as estrelas se reúnem num grande sol,
Um sol vermelho, uma poça gigantesca formada a meus pés,
Primeiro tocando-me os calcanhares, depois
Os dedos, agora já os tornozelos…

(Uma sensação de frialdade tépida quebra-me
As tibias, palitos que me mantêm as pálpebras abertas…)

(E os olhos fecham-se…)

Traz-me, Maestro, o som das minhas suadas coxas entrelaçadas nas coxas surdas de Beethoven,
Uma nota acima do sangue e do sémen e da música (que num líquido e orquestrado beijo
Trocam espuma e saliva) que me dão já pelos joelhos…
E de tanto rodar o vinílico círculo, a agulha rompe o hímen do tempo e trespassa
O coração de Beethoven.
Eis que finalmente o seu ouvinte e amante percorre as notas do silêncio e,
Olhando para o chão, grita:

Música, Maelström!

terça-feira, 23 de Junho de 2009

Rei Édipo


A Rei Édipo de órbitas vazias
Assalta todas as noites um sonho:
Olha-se a si com um olhar medonho,
Em vez de olhos, duas fotografias.

Arrancados, no chão, têm gravados,
Na retina, dois momentos brutais…
Num, o filho matando o seu pai,
Noutro, o filho com a mãe deitado.

Assim, patricida e incestuoso,
A si próprio Édipo se cegou…
Qual dos vis actos o mais vergonhoso:

Derramar o sangue que o criou
Ou seduzir a mãe que, anjo, casta,
Foi puta na hora de dizer basta?...

quarta-feira, 3 de Junho de 2009

as palmas


incerta e titubeante a luz começa por trémula
encher amarela e líquida timidamente a lâmpada
como se o medo de se mostrar aos olhos da escuridão
fosse acima de tudo uma questão de vida ou morte
num segundo momento a luz agora já lasciva e sensual
apodera-se de todos os recantos da sala onde
no seio da escuridão os dois corpos contra–
–acenam
.................parado o dela
.................só os olhos se movimentam
.............._deixando antever a brancura das órbitas
.............._mexendo-se o dele
................deixando espreitar-se a brancura das nádegas
e eis que a luz possui total completa e despudoramente
a plenitude da sala deixando antever a vermelhidão
do pano que no final do espectáculo haverá de cair
quando uma mancha de sangue cobrir finalmente todo o cenário
a luz iluminará o corpo das palmas que o público
freneticamente bate
.......................................................................onanista

terça-feira, 2 de Junho de 2009

Pelagus (XXX)


A viagem já não será redonda,
Nunca mais.
Assim, renuncio a forçar o tempo
_________...._a regressar a casa,
Entrego-me moribundo no espaço
Às marés quentes do teu regaço
Onde o galear das ondas convida
A aceitar o prazer do amor
.............................._e da morte
No horizonte obscuro do teu olhar
Repleto de vida.

quinta-feira, 28 de Maio de 2009

águas passadas


depois de esquecidas as palavras depois
dos corpos sucumbirem ao cansaço do
plenilúnio líquido das promessas falsas
como juraria eu amar-te se sempre
te amei em silêncio o molhado silêncio
depois do sol se pôr na porvindoura maré
que te depositou aos pés os lençóis
mudos de silêncio o molhado silêncio
teia construída pelo cantar dos búzios
ou seriam ostras que me deste a provar
à preia-luar junto as mãos abertas em
forma de concha e sonho lagoas onde
te sopro as velas pandas os olhos líquidos
escutando-te as orações arrependidas
e esfoladas de um céu aquífero pelos
teus joelhos suportado de sereia
no final depois do molhado silêncio o suor
dos corpos que encharcaram camas as lágrimas
que secaram ribeiros as palavras que
molharam o silêncio apenas resta o cheiro
a terra húmida e a águas paradas




Poema publicado originalmente no blog Porosidade Etérea