Terça-feira, 6 de Março de 2012

S/título


Há uma brisa que se levanta dentro da tarde de mim
e eu tardo-me pela brisa adentro porque te espero,
confesso-o.
Já o que te sopro, como fosse brisa,
não confesso
às paredes: as paredes são e/ou têm ouvidos,
não é o que dizem?
Mas às paredes nunca disse "amo-te".
A ti disse-o quando te vi: soprei-o sem me tardar.

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

S/título


Ergo os olhos acima da linha
de água e contemplo
os versos que os seixos desenham
à tona de mim.
Mergulho as mãos, pelo avesso,
no espelho da bacia e desconheço
o cheiro a mel e amêndoas
no fundo das palavras.
À superfície, boiam mortas as folhas
de oliveiras ancestrais;
mas no fundo, lá bem no fundo,
é o teu rosto que me assombra...

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

"Amanhã Chovi" - a minha obra de estreia literária

Já se encontra à venda o livro de poesia "Amanhã Chovi", obra assinada por mim sob o alterónimo Alexandre Homem Dual, com selo da Corpos Editora/World Art Friends. Quem o quiser pode comprar directamente à editora (em versão livro ou em versão e-book) ou, dentro de alguns dias, nas livrarias. Outra opção é encomendar "Amanhã Chovi" directamente ao autor (ou seja eu), para tal enviando um e-mail para amendual@gmail.com. Para além de um desconto de 10%, ficará com um exemplar com dedicatória e devidamente autografado.




"Delacroix, o pintor, disse certa vez que toda poesia é de circunstância. (...) Amanhã chovi é um livro de circunstância. Parece não falar do agora, usa tempos verbais que se contradizem, usa termos em desuso, abusa das palavras ilimitadas e dos versos que sabem ao que já não está aqui. O poeta, no entanto, consegue aquilo que procura – as palavras não têm tempo, elas permanecem. E a sua permanência diz o tempo presente. A poesia não tem tempo. Ela, quando de facto existe, como neste livro, diz-se a si mesma e às nossas circunstâncias."

Mirian Nogueira Tavares, in prefácio a Amanhã Chovi

Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

S/título

Os dedos frios e metálicos
de uma morte lenta, humana, quente,
escavam a carne e cavam o osso
por dentro, lá onde o futuro
se pode confundir com a alma das gentes.
A voz, anémica, desprende-se das palavras
que ficam, solitárias, nas folhas cobertas
de pó de um jornal, aberto, a preto e branco.
E o silêncio que só é trazido como lembrança
pelo vento que vira as folhas rasgadas...

Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

Os Abutres

Os abutres abriram as asas e foram construir casas
Lá no alto do céu onde não chega o fedor dos mortos.
Voaram sozinhos e deixaram para trás os ninhos
Onde os filhos ficaram aprisionados.
A cabeça calva deixa à mostra a pele muito alva
Dos necrófagos infantes.
E de barriga vazia só um deles é que pia
Ao sentir o cheiro dos mortos.
As árvores já perderam as folhas e as garrafas as rolhas:
Derramou-se o vinho no chão.
Há uvas esmagadas nas ruas empedradas da nossa nação…

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

Açores


No céu do meu quarto
vejo vacas a pastar,
pastam o aroma salgado
do atlântico mar.

Nas paredes nascem
mil videiras que eu trepo
até ao frio e espumoso
chão que é o meu tecto.

Um bando de açores
no céu da imaginação…
Voam-me nove ilhas
em volta do coração.

Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

Soltaram os Loucos


Soltaram os loucos! E agora andam os loucos
Pelas ruas gritando, pulando, fornicando,
Agindo os loucos como loucos que são!
Escrevem versos no ar, pintam murais no asfalto,
E põem-se muito sérios a admirar
Os carros que passam e as vidas que passam lá do alto
Dos prédios para onde amarinharam,
Como aranhas, como crianças, como loucos que são.
Dão de comer aos cães vadios e acolhem os gatos no seu regaço
E quando encontram um desconhecido
Não se furtam a dar-lhes um abraço!
E ficam muitas horas a olhar para o céu como quem olha para mais longe –
Dizem que estão à espera que cheguem as naves
Que os hão-de transportar para o espaço,
Para um planeta sem paredes, sem portas, sem chaves…
E assim ficam parados no meio da rua os loucos, como loucos que são,
Desordenando a ordem desordenada de um mundo ordeiro e são,
No meio dos outros que deles zombam como os verdadeiros loucos que são.

Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

van Gogh

Há um louco urrando por detrás da minha orelha,
Agachadinho de cócoras, para que ninguém o veja,
Para que todos pensem que o louco sou eu.
Desde criança que os seus urros me moem o juízo
Mas um dia hei-de arrancar a orelha, sem aviso,
À dentada – nem ele saberá o que lhe aconteceu…

Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

Oh Capitão


Oh capitão insano,
poucos são os loucos que te dão ouvidos!

Oh insano capitão,
só alguns ou nenhuns te são queridos!

Capitão insano oh
como como como como tu comes de resto!

Capitão oh insano
irmão sob cuja orientação eu me apresto!

Insano capitão oh
A tua vida e o teu comando estão por um fio!

Insano oh capitão,
aqui me afundo eu contigo e com o teu navio...

Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

Paisagem: anjos disfarçados de canibais


Eu cheiro o sangue na ruas
vomitado por animais
e sei que entre nós há anjos famintos
disfarçados de canibais.
Deixaram as asas para trás
algures a meio do caminho -
e hoje Deus (se é que há um Deus)
chora no céu sozinho.
O céu azul de Abril é suavizado
por nuvens brancas como almofadas:
é a cama que Deus fez para si mesmo
com milhares de asas arrancadas.
E enquanto esse Deus dorme no céu,
na terra os homens matam seus iguais -
e sei que entre nós há anjos famintos
disfarçados de canibais.

Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

S/título



Nos versos ladrilhados do chão que piso
há uma sensação, a cada passo dado,
de areia movediça fugindo por debaixo dos pés
e subindo pelo corpo acima:
preenchendo cada poro,
edificando uma escultura de areia viva no meu corpo,
desmoronando-se a cada sopro ressacado
das ondas do pensamento.