Vinte e cinco de Dezembro – são três
25 dezembro, 2010
Paisagem: o Largo do Carmo na madrugada do 25/12/2010
Vinte e cinco de Dezembro – são três
21 dezembro, 2010
Paisagem: do outro lado da rua
14 dezembro, 2010
O Lago
07 dezembro, 2010
A minha tradução de Annabel Lee
01 dezembro, 2010
A minha tradução de O Corvo
22 outubro, 2010
Até breve!
20 outubro, 2010
Paisagem: a ausência das palavras no país dos livros
12 outubro, 2010
S/título
Há sangue nas minhas mãos e no meu rosto.
E dedadas impressas a sangue gravadas no interior
Das tuas pernas. E do teu ventre. E os meus dentes
Estão pintados de vermelho, e entre os meus dentes,
Pequenos pedacinhos de carne dependuram-se,
Ainda vivos, como demónios balouçando-se nas estrelas.
E também os teus mamilos sangram, ainda que leite,
E ainda que esse leite seja azedo, alimenta a aridez da terra inóspita.
Há sangue pingando do meu sexo, e pinga para dentro da tua boca
E para cima dos teus cabelos. E o verde aroma a frescos prados
Longínquos que exalava do teu cabelo confunde-se já
Com o cheiro do sangue seco e próximo.
À medida que as horas passam e o silêncio se instala – já
Não há o som ritmado de falos a pingar – parecem os teus olhos sem vida
Seguir-me e a tua boca cheia de sangue querer gritar-me:
É teu, assassino, o rosto da mênstruosidade!
11 outubro, 2010
Paisagem: um oásis no deserto
Todas as portas do país se fecharam naquele dia
04 outubro, 2010
Retrato: um querubim chorando a divina comédia
Chora um anjo lágrimas de acrílico
Borrando a tela que lhe dá vida.
Como pode tal dor ser inflingida
A um anjinho belo e idílico?
Até suas asas tem recolhidas
– Elas que preencheriam o céu
Se da tela se rasgasse o véu –
Lacrimejantes e entristecidas.
Como te criou assim um pintor?
Que deus te deu a vida sem amor?
Calo-me pois fala o querubim:
– Não é por dor que choro ou tristeza
Que me aflige; é pela negra certeza
De não haver Céu acima de mim…
20 setembro, 2010
Natureza Morta: uma malga de sopas de cavalo cansado
Os cavalos estão cansados, chicoteados que são
15 setembro, 2010
(Resposta)
A Mário Cesariny:
10 setembro, 2010
Allegro appassionato: o cheiro que se lavra entre as minhas coxas
Abre bem as tuas narinas,
06 setembro, 2010
Trompe-l'oeil: a perspectiva do tempo
ao som de pianos
02 setembro, 2010
lava
meu sangue é lava e é com o
29 agosto, 2010
Natureza Morta: peça de caça e amêijoas numa caçarola
as pálpebras batem palmas tão rapidamente
24 agosto, 2010
S/título
Arrancados do corpo os espinhos, as feridas servirão
Agora para dar de beber aos habitantes do deserto.
O sangue que lhe corre pelo corpo – esse mesmo corpo,
O corpo do poema – escorre para a boca dos famélicos.
E dos que dançam a chuva para matar a sede. Arrancadas
As almas polissémicas às palavras – essas mesmas palavras,
As palavras que não são do poema – o que resta para lá do corpo
Despido e cru, ungido e nu, que um dia nos foi pão
Mas hoje nada mais que memória?
Como uma mortalha envolta em redor do coração...
06 agosto, 2010
S/título
no lânguido arrastar das cordas dos violinos
04 agosto, 2010
A Besta e a sua Cadela
Ei-la! A Besta! A arauta do Incesto!
Vejam: dois campanários do desnudo
Peito se lhe erguem, do peito peludo…
Tocam sinos de badalar funesto.
Rasga-lhe a pele e a carne a satânica
Igreja que das vísceras nasceu,
E ergue-se do seu berço-mausoléu
Como arquitectura biomecânica…
E, nascido o santuário profano,
Os seus pórticos abrem-se de par
Em par, do interior vindo susano
Ser, licantrôpega deidade e bela,
Que humana mulher vem a procurar,
A quem possa fazer sua cadela…
Dom Sebastião
Por entre o nevoeiro do amanhã
Nascido de uma manhã de nevoeiro, a névoa
Deixou as suas pisadas na neve que cobria
O pathos de uma tragédia grega
Ensaiada no deserto.
E é quando a selenita placenta de uma nação inteira
Se desagrega
Do útero matriarcal
Que os atiçadores de palavras e os escrevinhadores de incêndios
Se apercebem que é
A violência o último Dom Sebastião dos fracos…
Quando tatuaremos a Mensagem na Carne como quem marca o gado?
Quando tragaremos novamente o Mar como quem bebe sangue?
Quando carpiremos o Céu com lágrimas de fado?
Quando conquistaremos o Passado que nos fita Adiante?...
21 julho, 2010
Retrato de Um Sonho
Sonho-nos viajando pelo tempo no deserto
Montados em camelos e em dragões e em serpentes.
Sonho nus os nossos corpos jovens no leito do rio
Banhando-se nas escamas áridas das noites de verão.
E banqueteio-me das tuas pegadas – recordas-te,
Do dia em que as gravaste no céu, ao caminhares rio acima?
Hoje quero-me dançar-te, valsando pelas sombras de ti,
De ti que me atravessaste o peito
De bolas de pêlo e de balas de prata
Enquanto me sussurravas:
“São os sonhos caninos como lobos pequeninos, dentinhos
Como agulhas que ardem como faúlhas ao cravar a carne”…
Como-os eu enquanto os reúnes em rebanhos tu, Úrsula –
Aos sonhos.
14 julho, 2010
Paisagem: República Canibal de Alexandria
Hoje quero soprar para longe de mim as canseiras
Que me tornam o corpo pesado e lasso, que me sujam
Os cabelos na lama e mos enrolam à volta dos braços
Como pulseiras. Nunca me pensei cativo do meu próprio
Corpo nem cárcere dos meus versos. Quero cantar o verão
Que morreu em mim, no interior do peito que já murchou.
Contar, pétala a pétala, as flores do mal que Baudelaire
Plantou no seu jardim. Quisera eu enrolar-me em tempos
No corpo do Diabo e enamorar-me dos poetas malditos,
E rebolar-me na sua tinta como uma virgem promíscua
E voraz que saltita de cama em cama, não sabendo
Muito bem o que procurar – se é que demanda
Algo mais que o mero prazer da descoberta morfo-carnal.
Aqui proclamo a República Canibal de Alexandria!
Soltem todos os gatos pretos à rua e deixem-nos procriar
Sob o tecto estrelado que Dalí poderia ter pintado – ou
Cozinhado como um ovo.
Soltem todas as serpentes e enviem-nas, na vez
Dos pombos-correio, entregar as boas-novas a todos
Os habitantes do Éden.
Soltem todos os corvos e façam-nos pintar o céu
Com a cor dos seus bandos.
Soltem todos os poetas, decreto eu!
E não se esqueçam de me deixar os portões do inferno bem abertos
(sim, sim, bem abertos como diabólicas mandíbulas
Emoldurando uma bonita e rapada vulva – dentro da qual
Se vislumbra o focinho de um torpe e peludo lobisomem),
Porque eu também descer pelo teu corpo abaixo – e adentro,
Bem adentro… – e brincar com os gatos que se escondem
Nas sombras dos teus recantos, e com as serpentes que dormem
Enroladas nos caracóis dos teus cabelos, e com os corvos que te voam
Pela tua negra alma afora, e com os poetas que tu assassinaste
– atravessando-lhes a alma com a ponta metálica e da tua pretoriana língua…
Anda, dá-me a mão e eu levo-te pelos círculos do inferno.
Dá-me o coração e eu espremo-te as vinhas da minha poesia
Para dentro da tua boca. Em troca, só te peço que me oiças,,
Oh Psicópatra:
Dá-me Roma inteira incendiada
Ou não me dês absolutamente nada!
10 julho, 2010
Homem-Deus-Campeão
Engole o asfalto a voraz serpente...
Cada escama um jersey, uma cor...
Homem-máquina em perfeito labor:
Pé e pedal, coração e corrente!
Embala o tempo, deixando-o dormente,
Seduz a estrada, fingindo-a sem dor,
Crava-lhe as presas, num beijo de amor,
Num abraço que nem o tempo sente...
Mil olhos de sangue fitam a meta,
Pedalam como não haja amanhã...
A eterna glória ao fim da recta!
Os sprinters encabeçam o pelotão
Como dedos de fogo de um titã...
Eis que surge o homem-deus-campeão!
26 junho, 2010
S/título
Há quem queira esculpir rios no lugar
02 junho, 2010
Baphomet e as Virgens Gárgulas
Eu, Baphomet, às amaldiçoadas
Virgens de três mamilos ou de um seio,
Venho-me informar-vos, por este meio:
Por homem nenhum podeis ser tocadas!
Estátuas sereis p’la eternidade
E vossas coxas conservar-se-ão juntas,
As vulvas fechadas às marabuntas
Do sibarismo e da sensualidade.
Mas os arautos da podridão, larvas
De corpo invertebrado como um falo,
Jogam-se a elas, às cegas, às parvas.
Os vermes agarram-se às fêmeas gárgulas
E lá sucumbem, de tanto gritá-lo:
“Magistrado Baphomet, tens que dar-no-las!”29 maio, 2010
Svalbard
Contador de Estrelas
Lá vai ele pela estrada,
27 maio, 2010
Uma Crítica do Plágio
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luíz de Camões
Ódio é água que molha sem molhar
é cegueira que enxerga mas não se vê
é uma felicidade de um infeliz porquê
é prazer em dor por não poder amar
É um querer muito o que não se quer
é ficar só por não ganhar o coração
é negar o bater sentido do querer
é ganhar nada por perder a razão
É desejar um desejo indesejado
é servir um prato frio de sal e sódio
é ser odioso por não ter amado
Mas como pode causar lugar no pódio
de um fado tão triste e malfadado
se tão semelhante a si é esse ódio?
JSL
O texto seguinte foi redigido a pedido de JSL que me contactou para que eu lhe desse a minha opinião. Foi uma pequena provocação que me deu algum gozo, uma vez que isto é algo que me está gravado no ADN, desde que li o meu primeiro livro, 2 páginas por noite, a dura capa vermelha e roxa já não sei quantos meses guardada debaixo da almofada. Tinha 8 anos e o livro chamava-se Spartacus, de Howard Fast. Ainda o tenho, a lombada já comida pelos ratos. Mas ainda o tenho...
Artigo 196.º (LEI 16/2008 de 1/4 que estabelece o Código do Direito de Autor e Direitos Conexos)
Contrafacção
1 — Comete o crime de contrafacção quem utilizar, como sendo criação ou prestação sua, obra, prestação de artista, fonograma, videograma ou emissão de radiodifusão que seja mera reprodução total ou parcial de obra ou prestação alheia, divulgada ou não divulgada, ou por tal modo semelhante que não tenha individualidade própria.
Não considero o poema “Ódio é água que molha sem molhar” um plágio ao soneto de Camões “Amor é fogo que arde sem se ver” pela muito simples razão de: a) não haver uma cópia do texto ipsis verbis; b) nem existir uma alteração por tal modo pequena que não confira ao “poema inspirado” uma individualidade própria e autónoma do “poema inspirador”. Como exemplo da última hipótese, dou o caso de alguém que pegando no soneto camoniano, se limitasse a substituir palavras ou grupos de palavras por respectivos sinónimos. Eu próprio me encarrego do exercício:
“Amor é lume que flameja invisível
é golpe que dói sem ser sentido;
é uma felicidade desgostosa,
é mágoa que faz perder o tino sem magoar.”
Ora, pegando no que diz a Lei acerca da contrafacção (“comete o crime de contrafacção quem utilizar, como sendo criação (…) sua, obra (…) que seja mera reprodução total ou parcial de obra (…) alheia, (…) ou por tal modo semelhante que não tenha individualidade própria”), pergunto eu: onde reside no “poema inspirado” a individualidade própria necessária para que possa ser considerado uma obra original se este repete a estrutura e o tema do “poema inspirador”? Nota: quanto ao tema, se o “poeta inspirado” se limita a trocar sinónimos, parece-me óbvio que o tema não poderá ser diferente do tema original cuja autoria é do “poeta inspirador”. A questão é que a utilização da sinonímia pode ser entendida como uma tentativa de encobrimento do texto original, através da usurpação de uma estrutura e de uma temática já existentes. Ora no caso de uma homenagem ou de uma sátira (que não deixa de ser uma forma de homenagem ao original), o que acontece é precisamente o contrário: através do recurso a antónimos, o “poeta inspirado” remete o leitor para o texto original, não o escondendo, antes publicitando-o. E assim se desencadeia um processo de intertextualidade. Mas, num caso limite (sendo esta a última fronteira aceitável entre a originalidade e o plágio, no meu modesto entender – entender esse que se baseia não só em factores éticos e morais mas principalmente no espírito da Lei), é possível que não se recorra à antonímia, mas à cópia integral de versos sem que isso seja plágio. Suponhamos que o poeta inspirado copiava o soneto na íntegra alterando-lhe porém, por exemplo, os últimos versos de cada quadra ou, outro exemplo, escrevendo-lhe um terceto final diferente. Certamente (desde que não recorresse à figura da sinonímia) o tema do poema seria mudado, o que lhe daria a tal “individualidade própria” ainda que partindo, e copiando mesmo alguns versos, de soneto sobejamente conhecido. E acima de tudo, o importante (digo eu…) é nunca esquecer de mencionar a fonte, quer seja através de uma referência directa (no caso de obras menos conhecidas) quer seja através de referências indirectas, inerentes à própria obra “inspiradora” (no caso das obras mais conhecidas)…
P.S.: JSL teve a amabilidade de colocar o feed da minha participação no Fórum de Poesia Luso-Poemas e o feed deste mesmo blog, o Amendual, no site de poesia do bloktok; um muito obrigado.
P.P.S.: ao José S. Lourenço um grande abraço.
17 maio, 2010
Pelagus (ponto final)
10 maio, 2010
Platão
O padre tomou, com ambas as mãos, uma taça de vinho e despejou-o, reverencialmente, sobre a testa da beata que sentiu o sangue, ainda cálido, de Cristo, percorrendo-lhe o corpo, escorrendo-lhe, escarlate, pela
testa
face
em redor da boca
queixo
pescoço
ombros
seios
ventre
púbis
coxas
joelhos
calcanhares
entre os dedos dos pés.
Após esta via-sacra, o sacerdote lambeu e chupou o dedo grande do pé esquerdo da beata, sem nunca, padre ou vinho, em momento algum, lhe tocar nos lábios...
03 maio, 2010
Natureza Morta: uma colheita de horrores macabros
Recortando o horizonte carmesim
02 maio, 2010
Sandálias & Didascálias
Lá estava eu, num dia invernoso,
27 abril, 2010
S/título
E na dança arbórea
Do corpo maduro
E gasto,
Vieram-se a saber
Os dedos que rebolaram,
Vento seco,
No verde pasto...
20 abril, 2010
Tríptico Sangue Tipo O negativo
Há não muito tempo mas assaz distante:
Num invernal dia chuvoso e trovejante,
Tanta dor havia que dentro dela estava contida…
Tanta dor que não podia ser escondida.
Mas a pobre nem por socorro gritou –
E, silente assassina, a si própria matou.
Ciente da impossibilidade da redenção, tanto da Vida como do Amor,
A ambos arrastou para a cova, no seu último estertor.
Foi desfeito o par de almas suas (há uma só agora onde antes havia duas),
Dividido por este muro de morte inclemente –
Mas, querida, ele juntar-se -á a ti, brevemente…
Trilhando os caminhos do seu sangue o teu amor ele há-de encontrar,
Assim como tu encontraste a força para com a miserável vida acabar.
E tal como tu o fizeste, assim haverá ele de se matar.
Para o sono eterno ele é embalado num cálido e fundo poço avermelhado
Enquanto a sua mão na tua se enterra – e ouve, querida, o que ele, corajoso, te grita:
“Leva-me desta terra e marca, com o fim desta noite – desta noite –, o fim da vida.
Quero sentir os lábios que, sombrios, governam o Reino do Obscurecimento –
E saborear o teu beijo sanguinolento-lento-lento-lentamente…
Preto nº 1
Ela gosta de ficar sozinha,
No escuro, deitada,
Onde por si mesma se apaixonou
E a si própria se satisfaz,
Enquanto tenta, em vão, morder,
O pescoço de cor branca aleitada
Onde tem gravada a Marca de Satanás…
É uma Eva vazia de coordenadas celestiais,
Prenhe de sombras incandescentes, que
Durante o plenilúnio de Outubro, nos dará um
– Um só! – dócil beijo ou
Seiscentas e sessenta e seis travessuras dolentes?
Uma coisa é certa:
Ela
Falo
Ah…
Todos os dias se encontra com Nosferatu à meia-noite
E o Príncipe das Trevas sabe (é um facto)
Que ela o castigará com um beijo numa
Face e numa nádega com um açoite…
E ela ri-se e ri-se e ri-se quando lhe chamo mazinha…
Ri-se com aquele seu risinho de bruxinha…
Mas ela quer de si própria sair
Porque o vento na cara lhe chuvisca
Mas dela ela não se pode despir
Porque a si mesma está enraizada
E as raízes estão à vista…
Disfarça-as, corta-as, arranca-as e queima-as
Ou perfuma-as de Preto Nº 1…
Traja nada mais que umas botinas de pele de chacal
E colada ao corpo uma justa gabardine
– E um cigarro (cheira a cravo-da-índia) por acender na boca…
Lá vai despida para um funeral
Porno-erótico, nos seus trejeitos de louca,
Desejando-nos um Feliz Halloween.
O perfume dela tem o odor de outonais folhas caídas e queimadas
(Já acendeu o cigarro e já o bafora);
Lá vai o lindo e maravilhoso monstro e não há quem a abomine…
Para ela, todos os dias são Halloween…
Enterrarmo-nos naquela criatura
É como desenterrar um cadáver de uma sepultura
Funda, fria e escura…
Mulher Cristã
Perdoai-a, Pai,
Pois ela não sabe
O que faz…
Uma cruz mal pendurada, prestes a cair,
Na parede de cabeceira do seu quarto
Prenuncia a queda que da graça ela dará.
Enquanto uma efígie lhe arde na mente
E escorre, lava liquescente,
Por entre as coxas…
E ela questiona à figura do homem santo na cruz pregado,
O homem que se prestou a beber o vinho e a comer o pão
E a digerir toda as dores do homem seu irmão
E a defecar a Salvação (um cagalhão do tamanho do mundo),
Homem santo supra-sumo da sordidez,
Quase nu, ensanguentado, pornograficamente violentado,
Um exânime Deus, já moribundo:
“Quanto (te) virás Tu outra vez?”
E eu te respondo, mulher:
“Perante o teu Mestre, deverás implorar para O servir ou para O agradar
A ele, O do corpo marcado de ferimentos, em vivo sangue,
Ainda vermelhos,
Seja subjugada de costas no chão, seja no chão curvada
De joelhos…
Os teus pecados vão para além de qualquer absolvição
Mas talvez tu mesma prefiras a Punição?...
Acreditarás tu o suficiente para te sacrificares ao sofrimento
Eternamente – na fé, na alma, na mente?
Acreditarás tu o suficiente para te sacrificares ao sofrimento
Internamente – nos ossos, no sangue, no ventre?”
Arderá no inferno a sua alma sibarita:
Primeiro cozida ao de leve, depois bem frita…
E durante a missa, ela toca-se com uma mão
(A outra no pescoço agarra uma cruz)
Escrevendo no clítoris, com o dedo indicador
As letras que formam o nome do seu salvador:
J-E-S-U-S
Ela precisa sentir ressoar o evangelho de Jesus
Cristo profundamente dentro dela.
Jesus Cristo, eutícomo, é como eu:
Cabelo comprido e barba por fazer…
Jesus Cristo, anárquico, é ateu:
Versos despidos e uma religião por foder…
* Pequena brincadeira relativa ao IV Desafio do DRACULEA Café Poesia - uma forma de homenagem a Peter Steele, defunto vocalista de Type O'Negative, cujas letras das músicas "Bloody kisses", "Black nº 1" e "Christian Woman" me inspiraram para a respectiva tradução e subsequente composição deste tríptico.
13 abril, 2010
Inda He Inda He Indahehe
Os galhos dos salgueiros esticam os dedos na direcção da praia
Onde dança a tua voz, confundindo-se com o som das ondas
E com o sabor da maresia; os salgueiros estão lá no morro de onde
Te espreito: descalça pisando as areias quentes sob os teus pés
– nua nadando por entre um mar de mescalina. Lá onde eu morro
Já antes de mim morreram outros, mil outros mais, diabos e anjos
Cujas ossadas foram já desfeitas pelo lento languidescer dos séculos
E pelo peso do teu corpo e da tua voz. Faço-te adeus, apesar de me
Não veres – aqui invisível aos teus olhos me prostro a morrer, acenando
O sol que se deita para lá do horizonte na tua cama. E os gemidos
Delicados das ondas que beijam a praia levantam das suas sepulturas
Os espíritos de todos aqueles outros que morreram já antes de mim:
Uma tribo de índios, uns velhos e outros novos, estes de peito duro
E castanho queimado pelo sol que reina alto, aqueles de peito mole
E castanho queimado pelas fogueiras à beira das quais se habituaram
A dançar. E dançando e cantando para lá da morte continuam:
Inda he inda he inda he indahehe! Inda he inda he inda he indahehe!
Ainda te ouço mas já te não vejo; o cântico dos índios ecoa pela tua garganta
– ou a tua presença pela garganta deles, quem sabe? Eu só sei que hoje é
Uma boa noite para morrer: por isso dançarei na companhia dos índios,
Promíscuos, felizes, ao som da tua cantiga de embalar.
E quando me deitar, tal como o sol se deita para lá do horizonte na tua cama,
Esticarei os meus dedos uma última vez e colherei um punhado
De folhas de um salgueiro dobrado pelo teu sopro (sim, eu sei que me esperas lá
Na linha do horizonte); e espalhá-las-ei, jogando-as ao ar, sobre o meu corpo
Nu e prenhe de música – e de imortalidade.
09 abril, 2010
Paisagem: uma cidade moderna
O cair da noite tapa a cidade
Com um manto de culpa e remorso,
Gravando-lhe nas costas e no torso
Os castigos pela sua vaidade.
Mas seus mil fortes braços de betão
Suportam a cúpula tenebrosa
Que, bela, se insinua laivosa
E lhe preenche o jovem coração.
De manhã, novo tempo, novo espaço.
A cidade acorda seu corpo lasso
E para mais um dia se prepara.
E é assim com um olhar meio baço
Que a cidade dá seu primeiro passo
Fingindo-se um sorriso na cara.
S/título
As manhãs sempre trazem o sopro de uma nova vida,
Uma vida que vem não substituir e apagar a anterior e todas
As anteriores antes da anterior a ser apagada e substituída, mas
Simplesmente juntar-se, como numa amálgama de vidas
– e de mortes, claro – à complexidade de redes e de signos em que
Se torna a vida – ai a vida, a vida. Talvez fosse mais fácil
Falar de mortes, claro; de mortes e de mortos: os mortos não respondem,
Ainda que lhes falemos na obscuridade da noite ou que deles falemos
Pelas costas. Mas às vezes os mortos respondem, diz-me uma voz soprada
Por uma nova manhã. Às vezes os mortos respondem e riem dos que cá
Ficaram. Cientes de que nunca voltarão. Mas riem em silêncio, [aprendizes
Que são dos magistérios da vida eterna. Os silêncios são de ouro, aprendi
Com uma velha que poderia ter sido minha avó; e os mortos viajam
Depressa e com um sorriso crepuscular nos lábios lívidos.
Ai a vida, a vida… pantanosa, palúdica, a vida…
08 abril, 2010
Shiva
O anjo-da-morte tem olhos de serpente
Salém
A noite está envolta em fenómenos,
Até que uma Nosferatu invocou o julgamento de Salém…
07 abril, 2010
O Fado do Pobre Coitado do Diabo
Acordei e pus-me a beber
Natureza Morta: a maresia numa concha de berbigão
Quando acordo de madrugada
06 abril, 2010
S/título
Canta, de olhos fechados, com a sua voz de fumo,
O país de sonho que lhe foi sussurrado nos seus sonhos.
Conta, com a sua voz de fumo, de olhos cerrados,
As trágicas maravilhas de um povo que carrega o luto
Nas palavras e nos gestos solenes e gastos, monárquicos
Mesmo no seio da mais baixa ralé republicana;
As maravilhosas tragédias de um povo que, desnudo
Descalço, desdentado, avança para o mar em barcaças
Apenas tão duras quão duros são os calos das mãos
E com velas tão pandas quão pando pode ser
Um mar de negros xailes vogando no horizonte.
Cerradas as pálpebras, persianas das janelas da alma,
Resta imaginar o sonho de um punhado de capitães,
Os tais que desabrochariam em Abril, os tais que sem sangue
Vingariam as costas marcadas pelos chicotes e pelos cigarros dos
Putrefactos, insolentes, desumanos, energúmenos
Verdugos de um fadário que se vestiu a preto e branco.
Inspira, de olhos enclausurados, o último suspiro do adeus ao [passado;
O primeiro florir da manhã que se adivinhava nas cores ainda por [descobrir…
01 abril, 2010
S/título
Pela porta escancarada para o rosto da noite
Não se vê sombra,
Não se vê luz,
Não se vê nada.
Tudo é escuro e o tudo
Esconde a presença dissimulada
De um odor trazido pela aragem
Gélida e serena…
Odor doce de amêndoas que alivia
A dor ausente que o toque da morte gangrena.
S/título
Olhou-me um rosto outro do outro lado do espelho
Hoje ou amanhã ou ontem, não o sei bem.
Olhou para dentro de mim e olhou em minha volta
Com o estranho estranhamento de quem estranha
A familiaridade da âncora que
Quotidianamente ancora
Alguém à sua hora.
Entrei em pânico e saí de mim mesmo
Pela porta fora.
Sei-me melhor no não ver-me
Do que no olhar-me e desconhecer-me.Flores Púrpuras
Flores púrpuras desabrocham
No céu cor-de-sangue
À medida que línguas de veludo
Chicoteiam as coxas suadas
E ardentes
De 1000 virgens gemendo inclemência.
E cada gota de saliva derramada
É um mar de sémen e é um mar de prazer
Jorrando das pétalas arrancadas e atiradas ao vento do [infortúnio…
E há uma voz que chora:
Uma mão angelical afaga-nos o cabelo
E toca-nos o sexo em cada momento de desespero…31 março, 2010
A Noite da Floresta
Licantrópico,
O vento chama
A matilha
Uivando nomes
Que só os seus irmãos de sangue
Poderão compreender…
E na noite da floresta,
Enrodilha-se na lua
Transportando o cheiro do plenilúnio
Até ao nariz da floresta
Onde, antropomórfica,
A besta
Sente os seus pêlos interiores
Eriçando-se
Ao sabor do vento…
Natureza Morta: cadáveres dispostos arbitrariamente numa praia
Cadavéricos corpos à luz
Das estrelas em Faro foram nados
Invadindo as águas costeiras
Que lhes reúnem os ossos quebrados.
Falam na língua que a lua traduz
Em verbos de silêncio preenchidos
E trazem nos olhares as canseiras
30 março, 2010
Pub
S/título
A vida, neblina da vicissitude, é uma composição de [contrariedades
27 março, 2010
Natureza Morta: uma carcaça disposta numa cama de flores
a vida é uma puta pestilenta
26 março, 2010
Sorte Maldita
Maldita sorte esta que me acompanha
Madalena
Pela noite serena caminha Madalena
23 março, 2010
Agropsicografia
Eu, poeta, sou um agricultor
